Ho u v e u m a ép o ca, não tão distante assim, em que o tempo corria em outro ritmo, quase como se dançasse ao som de uma batida diferen...
Houve uma época, não tão distante assim, em que o tempo corria em outro ritmo, quase como se dançasse ao som de uma batida diferente. A vida era temperada por outros costumes, outras práticas que hoje nos parecem relíquias de uma simplicidade há muito perdida.
Nas cidades do interior e nas vastas áreas rurais, as pessoas dividiam mais semelhanças do que diferenças. Era um tempo em que as notícias falsas já circulavam, é verdade, mas não eram chamadas pelo nome pomposo que ganhariam tempos depois em inglês. Mesmo ali, no âmago de uma sociedade menos conectada digitalmente, já existiam roubo, traição, ganância e avareza – marcas inevitáveis da natureza humana que atravessam gerações. Contudo, também floresciam outras virtudes: compreensão mútua, consideração genuína, respeito mútuo, o peso dado à palavra empenhada e o amor, pura e sincera expressão do coração.
Mas quem disseminava essas histórias e versões dos acontecimentos? As narrativas eram propagadas pelos mais variados canais. Alguns eram rudimentares e cheios de charme, como as radiadoras – aqueles sistemas de autofalantes que anunciavam para toda a rua. Outros tinham a força dos jornais impressos, cuja chegada era aguardada com a ansiedade pela próxima edição. Havia também os encontros nas quermesses, as palavras pregadas nas igrejas, ou mesmo as conversas diletantes entre amigos em botecos ou bodegas. Porém, o meio mais potente de todos era aquele que não dependia de equipamentos ou alta tecnologia: a própria língua do povo.
Ser o assunto central da boca do povo era algo delicado e perigoso. “Ficar falado” tinha um peso implacável. Não havia defesa legal capaz de mudar o veredito coletivo; era uma condenação sem direito a apelação formal ou segunda tentativa. Em muitos casos, só restava a alternativa de sair da cidade ou aceitar que sua reputação não tinha mais conserto.
Era tradição por todo o Brasil: sentar-se na calçada à noite, descansar sob as sombras das varandas ou aglomerar-se em rodas de conversa nos pequenos povoados e comunidades rurais. Essa era a internet daqueles tempos – conexões feitas olho no olho, pele com pele, vozes entrelaçadas numa troca calorosa e presencial. Dentro dessas rodinhas improvisadas surgiam histórias dignas dos livros de magia: causos que se enriqueciam na imaginação dos contadores, ganhavam camadas com cada revisão oral e expandiam seu alcance no imaginário popular.
Eram as famosas Histórias de Trancoso. O próprio nome já parece convidar a um mergulho na fantasia. Para quem ouvia, aquilo era puro entretenimento – criativo e saboroso como um quitute cultural.
Hoje, os tempos mudaram radicalmente. A tecnologia transformou até mesmo o modo como experimentamos essas narrativas. Agora, a praça foi substituída por telas brilhantes; as calçadas deram lugar às timelines e feeds das redes sociais; e aquela poderosa língua do povo encontrou aliados inesperados nos algoritmos digitais. O que começa como um sussurro em Brasília repercute intensamente em São Paulo e logo ressoa nos sertões da Bahia, atravessando fronteiras ao simples toque de um botão.
Nesse novo ecossistema midiático, surgem novas "histórias" que misturam ficção com realidade: relatórios da Polícia Federal investigam os fantasmas escondidos no vasto mundo virtual – assombrações modernas que dão arrepios até no mais cético. E então se pergunta: seria Vorcaro uma espécie de narrador modernizado? Uma figura híbrida entre o profeta do apocalipse e o cronista do caos? Talvez o grande escriba das desventuras de uma Sodoma digitalizada?
O Brasil contemporâneo parece este reino encantado e retorcido ao mesmo tempo. Pois agora, no rastro do Carnaval – onde as máscaras caem sem aviso premeditado –, as marchinhas são substituídas por operações sigilosas da Polícia Federal revelando novos capítulos dessa trama nacional.
Chega-nos então esta nova versão atualizada das Histórias de Trancoso. Só que dessa vez não são lendas doces inventadas para embalar a memória; são relatos atravessados pelo realismo cru... ou talvez nem tão reais assim. Vida real, mas com doses generosas de ficção improvável.
Da redação do Portal de Notícias
Por Erto di Carvalho
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